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quinta-feira, 13 de maio de 2010

O corpo ainda é pouco.

Uma menina lá da faculdade, do meu curso, do meu campus, se suicidou. Eu não a conhecia nem sequer de vista mas tive a oportunidade de dividir uma mesa pra um café com alguns amigos dela, pessoas que a queriam bem, que ainda estavam tentando compreender a falta, o vazio, o espaço inacabado que ela deixara. Ouvi os relatos calada - quem sou eu para falar sobre o silêncio? Mas fiquei pensando nisso.

O suícidio é uma coisa chocante por essência, escolher dar cabo na própria vida nos parece a tradução de um desespero que não sabemos nomear, um retrato da desesperança que atormenta o juízo - para onde estamos indo? chegaremos? o que fazemos com o tempo que nos é dado? Não é mesmo por isso que falar de morte nos deprime tanto? Falar de morte é falar de vida - as flores de plástico não morrem porque nunca viveram de verdade - mas as pessoas de plástico que não vivem vão morrer porque um dia nasceram. E falar sobre a morte é repensar sobre a vida e o sentido que damos a ela, se trabalhamos demais, se estamos sempre atarefados, se nos impacientamos constantemente com aqueles que amamos ou se nos cercamos de solidão. A morte é um fato imutável, mas a vida é sempre uma possibilidade infinita de ofertas daí a dificuldade em escolher em que tom vivê-la, se é que pode-se dizer que sempre poderemos escolher.

O suícidio numa faculdade de psicologia ecoa nos corredores com questões que insurgem na angústia típica de outra característica que a vida exige: nós não controlamos nada, não sabemos de nada, não resolvemos nada - embora passemos pela vida achando que somos plenamente capazes de agendar nossos acontecimentos. Como bem me disse a amiga dela "ela me ligou de manhã, bem cedo, mas eu estava dormindo, não atendi, deixei pra lá, pensei 'depois eu ligo pra ela' só que não tem depois. eu não tive depois, sabe?"

Vamos todos os dias a faculdade, discutimos teorias, aprendendos farmacologia, diagnósticos e técnicas. Achamos que entendemos o funcionamento da mente alheia (vamos convir que esse é um lugar muito tentador para ocupar, o de conhecedor), que sabemos premeditar o que pessoas farão ou que captamos o sentido subjetivo do outro ou que saberemos resolver os problemas dos outros. Será? Será que é possível saber tudo isso? Achamos que é isso que faremos com as pessoas que nos chegarem em busca de escuta e auxílio? Vamos sacar tudo e resolver seus problemas? Isso não existe. Cada um resolve suas próprias questões, somos meros facilitadores, auxiliares de processo, assistentes de execução, revisores finais, tão humanos e falíveis, capazes de não perceber os sinais enviados pelo outro e até mesmo de não ouvir o que claramente é dito. É difícil sair de nós mesmos para analisar a perspectiva de outra pessoa - é um fato cultural, social, histório, biológico, sei lá e não nos iludamos com a ideia de que um simples diploma muda isso. Não muda.

A morte me assusta muito e eu até me embaraço diante da minha bobeira diante dela. Exemplificando: se alguma amiga minha moresse, a minha primeira vontade seria ligar pra ela pra compartilhar como eu me senti perante a morte dela, para saber como ela se sentiu em mais um fato que compôs a nossa história. Só que, dessa vez, ninguém me atenderia. A morte é o silêncio initerrupto do outro lado. A morte me lembra que preciso falar, falar, falar antes do silêncio. O tempo é curto - o corpo ainda é pouco - mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma a vida não para.

Que sentido eu dou a ela enquanto corro? Será que dou?


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Piada pronta.



Penso que faculdades seguem um fluxo baseado no mais alto grau de sadismo possível que tem no afunilamento mental de fim de semestre o maior expoente do gozo com o sofrimento alheio já registrado. Em março e abril perdi as contas de quantas vezes o sono foi uma imposição tão mais interessante do que as aulas... mas agora, na derrocada final, maio e junho estou correndo uma são silvestre que - em três anos? sei lá? - descambará num possível (lendário) pódio (diploma?). Finjo que acredito nisso tanto quanto finjo que ir pra a faculdade é minha prática cotidiana. Mas até aqui, nenhuma novidade afinal qualquer ser que tenha tido a ideia de se meter num curso universitário nesse país tá careca de ser íntimo do deleite cruel dos finais de semestre. A melhor piadinha que já vi foi "final de semestre, vida inteligente na madrugada". Né?

Assim sendo, essa semana ( e bem no comecinho da próxima) eu precisava entregar uma entrevista com um estudante que estivesse estagiando em clínica para uma matéria, (coisa que fiz nos quarenta e cinco do segundo tempo, mas com muito prazer. Diria, de forma sutil, que minha turma tem um preconceito muito simpático com a psicanálise - infelizmente, bem fundamentado - o que me fez correr atrás que nem uma louca de um estudante que estivesse estagiando nessa linha teórica e não fosse completamente prejudicado mentalmente. aleluia. obrigada. amém), um seminário sobre a prática da dinâmica de grupo em instituições na cidade, um seminário sobre a visão behaviorista da consciência e do auto-conhecimento, a confecção e impressão de folders com a programação do forum de psicologia escolar que organizamos e será na sexta e mais uma prova de behaviorismo na terça, sobre comportamento verbal, regras e mais uns textos por aí.

Sorte minha estar metida em bons grupos, com pessoas capazes, inteligentes e responsáveis. Azar o meu que embora a aula comece as sete e trinta da manhã, chegando seis e quarenta na faculdade já não se acha onde estacionar, o que acarreta num belo passeio matinal no calor da bahia - que tem um tráfego muito charmoso, com motoristas muito educados, delicados e finos, confiram - até a faculdade. Mas a cereja mais docinha do bolo foi a gota dágua até mesmo nesse roteiro de pura sacanagem que é minha vidinha. Eu tenho milhões de defeitos - uma das brincadeirinhas mais jogadas entre os amigos é: insira uma moeda e critique Juliana ou fale sobre o quanto você morre de medo dela. A-d-o-r-o. (not) Mas, definitivamente, eu não sou uma pessoa grossa. Detesto grosseria na mesma intensidade que detesto babacas que acham que pagam mais IPVA que os outros ou que são mais bonitos que o resto da população e pensam que podem parar o trânsito porque é cômodo para eles e a humanidade que espere pacientemente ou tanto quanto detesto gente que vem com desculpa esfarrapada ou tanto quanto detesto gente que troca os amigos de sempre pelo namorado da estação. Pois é, enfim, detesto muito grosseria.

A pessoa aqui acorda numa dor de garganta doida, se acaba terminando um trabalho até tarde na noite anterior(só trabalhamos com última hora, desculpa brasil), acorda cedo porque a professora resolveu instituir que já que nós, queridos alunos do maternal dois, não chegamos no horário na aula dela, ela vai nos educar no super-nanny-wayoflife: quem passar de sete e quarenta não pode entrar na sala (um mimo, não é?). Meu grupo era composto por uma colega que tem neném que toma a última mamada as sete e por uma outra que tinha orientação de TCC as sete e quinze. Ok, já que eu sou mesmo a mais disponível,imprimi o trabalho e fui lá entregar. Até aqui, um dia de merda, mas nada de novo.

Daí que, meu grupo de outra matéria resolve pedir clemência para outra professora, vulgo, um adiamento para apresentar um seminário porque não conseguimos dar um passo pra a frente com relação a ele.
Cena: - professora fazendo ALOCKA completa, dizendo que ela não vai adiar o seminário coisíssima nenhuma, que nossa turma não quer nada com a hora do brasil, que ela não sabe porque essa resistência com relação a ela (tenho vontade de levantar o braço e sugerir que talvez seja porque ela disse para a sala toda coisas como "vocês me entregam essas coisas como se fossem resumos? FULANO, o seu está ruim, mas diante de outros catastróficos que li, até que te dei o ponto extra, não é" [ quero abrir um ps só pra dizer que a minha sala é uma das salas mais nerds que existem e todos os professores amam meus colegas profundamente] ou porque ela foi a bruxa do setenta e um constrangendo os coleguinhas em público, num banho de graciosidade com perguntas tipo " vocês pediram pra eu remarcar a data de apresentação para me mostrar ISTO? sinceramente?", mas depois repenso e acho que não será útil para a nossa relação esse tipo de clareza e esclarecimento e me calo. afinal, sou bondosa e deixo a professora seguir aquele ditado: as vezes a ignorância é uma benção). Passo a ser a porta-voz do grupo, na incrível arte de mendigar uma nova data implorando pelo não constrangimento de todos os envolvidos. Ela diz que não. Então, uma outra colega, de um outro grupo, chega na professora querida e pede pra apresentar o trabalho em outra data, porque a SALA inteira está organizando um forum que exige muito envolvimento, tempo e desgaste, impossibilitando que o grupo dela apresente com inteireza na primeira data pré-estabelecida, no dia X. A professora muda a data da colega para o dia mais conveniente. Sorri para nós e diz: então, vocês passam a apresentar nesta data, no dia X, no lugar do grupo delas, ok?

Uma pausa. Respiramos fundo. Estamos na completa merda e sabemos que agora não interessa mais que dia vamos falar de nada, o zero é um fato absolutamente consumado. E ela ainda vai pagar de boazinha porque mudou a data enquanto nos questionará se foi pra apresentar aquela porcaria que pedimos adiamento. Aceitamos a data nova e saímos.

Não é que hoje a professora querida, sorrindo para a turma, sugere um ponto extra para quem for ao forum (que toma um dia inteirinho) porque ela "quer ajudar depois do absoluto fraco desempenho na avaliação" e finge a maior surpresa quando as colegas replicam que somos nós mesmos que estamos organizando o forum?

Estou tão doente e tão cansada que mandei tudo pra a pqp, botei um pijama, catei umas pastilhas pra garganta e fiquei em casa ouvindo meu top10 de músicas de Chico Buarque num repeat infinito, chorando até morrer por tudo que digo e pelo que nem ouso cogitar dizer e tomando chá.

A tragédia é pouca, mas o pause é eminente.

sábado, 8 de maio de 2010

Puta falta de sacanagem

Como no fim das contas eu não tinha nada pra fazer no sábado - minha prima me convidou pra ir pra uma boate onde ia ter forró e uma dupla sertaneja, mas né - acabei saindo pra jantar com meus pais e um pessoal deles. A história toda é um apic fail clássico e completo, então, vamos lá.

Como tenho muita dificuldade com ambientes hostis (na verdade, com qualquer espécie de hostilidade de forma geral) fiquei com cara de bunda e sorriso amarelo me fazendo de surda grande parte da noite, na menor parte conversei sobre carros e futebol com os homens da mesa e foi o momento mais interessante de todos. Mas, vamos ao que interessa.

Fomos os primeiros a chegar, pegamos a mesa e sentamos. Pessoa 1 chega e me diz "oi! nossa, como você tá linda!" - sorrio amarelo e agradeço, mas ao ver que pessoa 1 está usando um combo composto por: cabelo loiro platinado + batom vermelho + colant de oncinha + saia + plataforma começo a me questionar até que ponto é um elogio ter passado ilesa pelo crivo de "bom senso" dela, enquanto penso tudo isso, pessoa um complementa o elogio "você cortou o cabelo? ah não, você prendeu pra trás. parece que você tem doze anos!". Pessoa 1 fail em ser simpática.

Pessoa um me pergunta porque eu não levei o namorado pro jantar de hoje. Respiro fundo - o namoro terminou há uns dois meses - rezo para meus pais não abrirem a boca , sustento o carão e faço a egípcia na saideira: "ah, ele está em casa, está meio doente". meu pai dá um sorrisinho sacana de canto de boca pra mim. no fim das contas, foi uma meia verdade, porque ok, é ex-namorado mas é um dos meus melhores amigos então não faço ideia se tava em casa mas a parte do doente era verdade. fail pra minha preguiça de explicar e discutir fatos do meu (problemático) passado amoroso com gente que usa colant de oncinha e pergunta pra minha mãe o que ela achou (fica aqui o registro que minha mãe não pinta a unha nem com esmalte renda porque acha que tem cor demais.)

Pessoa dois chega e começa o festival de grosserias com o garçom. Fico tão sem graça que acho que acabo agradecendo a ele por tudo inclusive por nada ou por ficar em pé respirando ao invés de esfaquear pessoa dois, como ela realmente merecia. Pessoa dois tem um tique no olho direito que funciona assim: enquanto o olho esquerdo dela fica parado e funciona normalmente, o olho direito fica girando na órbita e piscando sem parar. Faço um esforço absurdo para não ficar secando pessoa dois. Consigo. Pessoa dois vira pra mim e diz: "amiga, porque você não quer carregar o meu bebê?"

1) que tipo de pessoa com mais de vinte e quatro anos chama alguém de amiga? ainda mais quando não é amiga? 2) que tipo de pessoa oferece o bebê pra você carregar?

dou um sorriso cretino, invento uma gripe e digo que por isso não posso pegar o bebê. começo a me envolver nas conversas automobilisticas e futebolisticas e escapo semi-ilesa do evento no final das contas. volto pra casa e me dou conta de que, havia uma pessoa de vinte e seis anos lá, casada, com um filho e trabalhando enquanto eu aos vinte e um fui promovida a estar pra titia, sem emprego e com nenhuma perpesctiva. epic fail. puta falta de sacanagem.

Namorado.

Pra quem trabalha com bom senso e sabe que escolher e arranjar namorado é um processo que por um triz não leva ao manicômio, fica aqui essa deliciosa lista de critérios que devemos levar em consideração se estivermos considerando arranjar um namorados dos bons.
Os desenhos são da artista plástica Katie Turner, as imagens e o trabalho dela eu conheci nesse post aqui da Juliana Cunha.

Pessoalmente, risco fácil o número três e o número cinco. Mas não sei como viver sem a expresa frequência cotidiana do dois e do sete! Fica a dúvida: onde encontrar um desse, rapaziada? ainda se fabrica? existe?




quinta-feira, 6 de maio de 2010

FAIL

Você sabe que tomou um FAIL sincero da vida quando:

a) sua vida social é tão intensa que seu tanque de gasolina dura três semanas
b) tendo o tanque sofrido pequenas baixas no ponteiro em decorrência apenas de ficar com o carro ligado mofando até uma hora na fila para estacionar na faculdade
c) o fato de seus únicos planos pro final de semana serem jogar the sims e estudar pra um seminário, *em que você não pretende vender a alma ao diabo nem lidar com a escolha de uma linha teórica em psicologia como prática religiosa criada por um fundamentalista no irã*, numa turma puxa-saco
d) todas as anteriores


Puta falta de sacanagem, viu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Whatever works.




Acho que muita ansiedade acaba tirando muito da possibilidade de se sentir prazer quando enfim consegue-se realizar o desejo. Depois de esperar que o filme começasse a passar em Salvador (coisa que não acontece, embora vinte e cinco salas de cinema estejam passando Alice e Homem de Ferro 2), acabei assistindo Whatever Works, novo filme do Woody Allen, aqui em casa, graças ao DVD que um amigo querido me emprestou.

O filme é muito bom e, pra mim, fica ainda melhor quando os pais de Melody aparecem. Tem momentos realmente iluminados - como a cena em que Melody termina com Bóris, a reflexão final dele, a teoria completa para não-explicar o amor e toda a trajetória do filme em descontruir o conceito de sentido e significado, tão intrisecos a nossa cultura ocidental mesmo apesar da conversa de "completude impossível" da psicanálise.

Me aborreceu um pouco o novo amor de Melody e Randy, porque acho forçoso demais ver alguém lânguido e loiro uma vez e a partir daí se auto-proclamar apaixonado o suficiente para bagunçar um casamento (tendo aparato e suporte da mãe da moçoila, inclusive) - mas pensando bem, agora, sei que na vida real é assim que as pessoas jovens (alô, meus vinte e um anos tão ligando pra marcar presença) fazem as coisas: muita emoção, muita comoção, uma crença obstinada, nenhuma razão, muita esperança e muita vontade de experimentar coisas novas e viver a vida loka intensamente. Definitivamente, sempre me frustro quando o inteligente que, por mais torto e egocêntrico que seja, acolhe e ensina é trocado por outra pessoa, apenas porque esta é bonita. (não me venham com chorumelas, sem ter nunca conversado com alguém, é absolutamente impossível julgar se a pessoa é mais interessante ou não). Mas, o apego a beleza é inerente a juventude e, hoje em dia, essencial para continuarmos consumindo enquanto nos massificam na era da estética e das tatuagens de cerejinha. Sono. Tem uma hora que Melody fala pro Boris que ele perde de aproveitar as coisas boas da vida porque parece uma criança mimada fazendo birra porque a vida não é do jeito que ele gostaria que fosse. Olá, identificação. Ela podia ter dito pra mim. Basta reler a minha crítica aí em cima e perceber isso. O final do filme é bonito, e entendo porque a critica compare com Vicky Cristina Barcelona, expondo que há uma perspectiva mais otimista, mas me lembrou muito Annie Hall, com um final artístico, de pessoas que tiveram tantos conflitos e depois seguem circulando como se tudo fosse normal, como se tudo pudesse dar certo.


A grande questão que fica na minha cabeça agora, após ter assistido o filme é sobre o sentido do amor e a perpesctiva de seu término. Estar num relacionamento e amar é simplesmente engolir o outro, decodifica-los, nos apropriarmos do que julgamos melhor no seu discurso e depois dar o fora? Acho que não, realmente acho que não é isso, e até concordo com a perspectiva do filme de que o amor não é uma escolha e sim uma questão de sorte, acaso, jogo de dados cósmicos, mas não consigo deixar de me inquietar e me incomodar com o fato de Melody ter consumido o que havia de melhor em Bóris, somado ao que havia de melhor nela - o interesse nas pessoas, a esperança de um futuro melhor, a curiosidade pelas idiossincrasias de cada um - e então, o tenha abandonou para viver com o ator bonito que, (como diz @sobaminhalente quando quer me fazer sentir burra) eu não entendi a proposta da presença e da relevância no enredo. (sim, eu sei que Melody e Bóris eram realmente muito diferentes, que obviamente ela só se meteu na relação com Boris pelo mesmo motivo que se meteu na relação com o Randy: ser jovem, não saber o que está fazendo, ter sede de viver e ser facilmente impressionável/encantável/conquistável)(e sim, eu também sei que muito de Melody fica em Bóris durante e depois do desenvolver da relação, eu juro que entendi a proposta, viu @sobaminhalente)

De qualquer forma, acredito que o pleito é válido: aproveitar os bons momentos já que a finitude é certa, seja lá no arranjo qualquer que você faça, seja lá o que funcione.


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Burocracia periódica.




Se você não mora em Salvador, nunca vai entender o efeito do fenômeno "verão" na cidade e, principalmente, nas pessoas. "O verão" é quase uma instância, um balacobaco, um intangível, o maioral. Penso que sempre foi assim, mas de uns tempos pra cá a coisa se agravou, o discurso de perspectiva foi se afunilando - a partir de outubro pode-se ouvir por aí em conversas ansiosas: "o verão já está chegando". Se você, leigo não baiano está pensando "ah, o verão é uma coisa boa, muito sol, uma praia linda dessas que vocês tem.." digo logo: NOT.


O verão é o código para "a pegação na bahia". Em Novembro, te juro, sem sacanagem, algumas pessoas começam a terminar namoros (não pensem que é só namoro de um mês não tá? tem gente que termina namoro de, sei lá, três anos) porque "é verão" enquanto outras que estavam se conhecendo deixam meio pra lá porque né "verão não é hora de namorar". Aqui o verão vai de novembro até o final do carnaval e a cidade inteira se sensualiza ao som do axé - acho que o carnaval é o fechamento do ciclo porque tem a velha tradição de beijar o máximo de pessoas possíveis ao som de hinos de incentivo ("eu quero mais é beijar na boca / eu quero mais é beijar na boca / e ser feliz / daqui pra sempre" ou "comigo é a base do beijo / comigo é na base do amor" ou insira aqui seu bordão de beijação de qualquer carnaval since ever) e de fazer aposta e aí quem beijar menos, tem que beijar um dos cordeiros, aquelas pessoas que trabalham segurando as cordas dos blocos. Mas, pensando bem, o verão faz calor e isso pode mesmo propiciar esse fogo todo nas pessoas. E pensando bem, queima o cerebro de outras pessoas também, porque conheço relacionamentos em que a via de regra é "namora-acaba no carnaval - volta - namora - acaba no carnaval att infinutum".


A questão é que, assim sendo, aqui em Salvador as pessoas podiam viver em paz em seus relacionamentos de Março a Novembro e costumavam passar por períodos de ansiedade seguidos de bagaceira e pé na jaca de Dezembro a Fevereiro. Ok. Mas agora, "axélizaram" o São João e a grande tendência é viajar em excursão para as cidades do interior e ficar com todo mundo! Ou seja, agora, além de Dezembro, Janeiro e Fevereiro estarem interditados, Junho também está!



As coisas da ordem burocrática-geográfica-temporal dos relacionamentos soteropolitanos estão ficando tão cheias de vias de regras e de condições temporais para acontecerem que acho que o celibato é o caminho mais viável para acabar com as inquietações do tipo: "esse MÊS eu posso ligar pra ele?" ; "como anda nossa relação 8 meses juntos, 4 meses de férias?" (os empregos podiam seguir essas vias de regra também, né?) ou "aimeuDeus, tô adorando ficar com ele, mas lá vem o Verão... no que será que vai dar?"



Calor baiano, derretendo dignidades desde a invenção do mundo. #ficaadica

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Pedra de gelo ao sol.



"Repare essas velas no cais: que a vida é cigana, é caravana, é pedra de gelo ao sol-degelou teus olhos tão sós num mar de água clara..."

Caravana, Geraldo Azevedo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Música de chuva.

Salvador não sabe brincar de chuva e o vento estilhaçou uma janela aqui de casa ontem de madrugada. Agora, continua chovendo e está tão cinza lá fora que eu nem consigo ver os prédios que ficam aqui na frente. Isso significa uma preguiça absurda, um coque desajeitado e uma caneca de chá quentinho.

Fica aqui a trilha sonora que embala o momento, pra quem, assim como eu, estiver curtindo fossa e tempo ruim pelo mundo afora.

She & Him – In the Sun




Marion Cotillard – Take it all (trilha sonora do filme "Nine")



Caetano Veloso - Não identificado



Handsome boy modeling school (feat Cat Power) – I’ve been thinking



Marcelo Camelo e Mallu Magalhães – Janta



The smiths – The boy with the thorn in his side

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Apanhado geral.

Os melhores trechos de dois textos ótimos que eu li hoje. Quem sabe serve para aguçar a curiosidade de alguém pra ir atrás de ler os textos completos?


# Maria Rita Khel, psicanalista, na sua coluna do Estadão, falando sobre a morte do sentido:

"O que tanta gente foi ver do lado de fora do tribunal onde foi julgado o casal Nardoni? Torcer pela justiça, sim: as evidências permitiam uma forte convicção sobre os culpados, muito antes do encerramento das investigações. Mas para torcer pela justiça não era necessário acampar na porta do tribunal, de onde ninguém podia pressionar os jurados. Bastava fazer abaixo-assinados via internet pela condenação do pai e da madrasta da Isabella. O que foram fazer lá, ao vivo? "Ver" a morte? "Lá onde moro não tem esse negócio de morte violenta. Lá só tem árvores e passarinhos", disse à TV um rapaz que viajou de Ibiúna para dormir ao relento na frente do fórum de Santana. Ele foi ver a morte.

Mas a morte não se vê de fora do tribunal. Nem pelo lado de dentro. Nem de lugar nenhum. A morte mesmo, mesmo, é aquilo que não se vê. Vê-se o corpo sem vida. Vêm-se marcas de violência, decrepitude, doença. A morte está fora de nossa capacidade, tanto de representação em imagem quanto de simbolização. Por isso (assim como o gozo sexual) ela dá tanto o que falar."

# Fabrício Carpinejar, em seu blog:

"Há casais contra qualquer ostentação. Não realizam propaganda do seu amor. Não narram vantagens, não se elogiam em público, não descrevem o que ele ou ela preparou de especial na noite anterior, não geram ciúme, muito menos inveja entre os amigos. Não se derramam em abraços de aeroporto em cada esquina.

São os casais ideais, certo? Talvez durem para sempre, o que não traduz perfeição.

Não há como ser feliz sem merchandising do que se está vivendo. Sem morder a língua. Sem fofoca. Sem contar um pouco mais. É pensar e divulgar.

O amor é público, desde quando se estendeu a mão pela primeira vez com muito nervosismo para andar na rua com ela.

Não existe como disfarçar. Sensibilidade controlada é indiferença.

Um dos graves traumas afetivos é a falta de amor pelo amor.

Os pares se amam, mas estão descontentes por amar. Não desejavam estar amando. É um amor contrariado, um amor dissidente. Como uma maldição: Por que foi acontecer comigo logo agora?

É como se a companhia não fosse apropriada. Ou que não devia ter surgido naquele momento, é bem capaz de atrapalhar os negócios ou a vontade de viajar e de ser livre. Ou porque é diferente e não responde automaticamente. Perderemos tempo, perderemos a agilidade que tanto nos caracterizava."

terça-feira, 6 de abril de 2010

Signo de joaninha.

Enquanto meu corpo se recusa a levar a vida a sério (vulgo: dormir) e insiste em achar que o despertador estará de brinks amanhã quando sugerir que eu acorde as seis e quinze da manhã, eu fico aqui perambulando pelo meu google reader e descobrindo coisas muito, muito legais, mas que infelizmente não serão cobradas na prova de dinâmica de grupo que eu farei amanhã, mas que eu recomendo para quem estiver passeando pela internet, tipo 1) A coleção Risqué Penelope charmosa com uns vidrinhos tão lindos que eu sei que vou comprar todos só por gulodice visual; 2) a entrevista lúcida do Wagner Moura pra as páginas vermelhas da revista TPM desse mês e finalizando, 3) o site inteiro dos Bichinhos de Jardim. Sou realmente uma apaixonada por quem consegue transformar quadrinhos em algo inteligente, interessante e gracioso (alô alô Quino, Liniers, Schulz e Clara Gomes.)
Abaixo, algumas tirinhas dos Bichinhos de Jardim que eu achei muito bonitinhas e salvei no pc. Clica que elas aumentam.
Ah, eu sou do signo de joaninha com certeza, mas amaria ser do signo do caramujo!






segunda-feira, 5 de abril de 2010

Stand by me.



Curto a idéia de subverterem uma música teoricamente romântica numa versão assim, digamos, mais literal.

sábado, 3 de abril de 2010

Close caption.



Definitivamente, se minha vida fosse um filme, eu gostaria que fosse uma comédia romântica bem clichê de Hollywood (prazer, Bridget Jones): eu, mocinha sem jeito, com um senso de humor sempre impertinente, acima do peso, desajeitada e sem vislumbarar exatamente uma chance de futuro coerente e discernido em alguma espécie de profissão, e sendo bastante ingênua com relação as intenções das pessoas ( e homens) ao meu redor encontro o homem lindo, inteligente, divertido, cheio de sucesso que se apaixona por mim, me acha encantadora e aí nos casamos, vamos morar numa casa linda,cheia de flores, isso melhora a minha auto-imagem e eu consigo um emprego fantástico e teremos filhos com sardas e marias-chiquinhas. FAIL total - não sou loira, não fumo, não faço diário, não tomo porres homéricos por aí e devo ser das poucas pessoas que preferem Colin Firth a Hugh Grant...
Na vida real, é claro, minha vida tem uma tendência absurda a gostar de filmes europeus obscuros, com cenas melancolicamente bonitas se vistas de longe, mas sem nenhum nexo ou sentido se vistas de perto. Quinta-feira, por exemplo, eu fui pro Circo. Com uma sapatilha bem dorothy, sentada numa arquibancada dentro de uma lona colorida, com barulho de chuva,comendo maçã do amor do lado de uma amiga empolgada que se encantava com as mágicas e paquerava o moço que vendia refrigerante no circo. Digno de um filme libanês! Ontem de noite, aqui na casa da minha avó (uma casa dessas típicas de senhorinhas do interior), estava chovendo muito, enquanto eu e meu primo, ouvíamos Chico Buarque e tomávamos cerveja.
Meu tio já me chamou pra sair umas dez vezes e insiste para que a gente saia para beber um licor. De certa maneira, eu tenho certeza que muito em breve vou me agarrar com um livro no sofá! A juventude que não sabe ser aproveitada por questões mínimas e irrelevantes não é mesmo um tema comum a estes filmes de tom acinzentado? Ah, a beleza de uma canção emoldurando a decadência de não ser um ícone do mundo moderno...
Ainda não fiz nada tão desajeitado mas estou longe de sequer ter saído de casa nessa chuva, então, também não cheguei nem perto de achar o homem-de-sucesso que me levará para essa vida fantástica (anham cláudia, senta lá). Por enquanto, vou continuar ouvindo a chuva aqui na varanda, enquanto minha família está comendo a sobremesa na sala de jantar escura (as luzes acabaram de queimar por lá.)
De qualquer forma, com sorte pelo menos, os filmes indies que fazem a gente dormir pela metade costumam ter trilhas sonoras bem mais interessantes do que os top10 de Hollywood. E falando a verdade, pessoas com tendência ao Bridgetismo tem poucas chances de chamarem a atenção de Hugh Grant, mas o mais triste é que elas tem ainda menos chances de se deparar com Colin Firth num sueter de rena enquanto elas vestem pijamas.