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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O lado babaca da psicologia - teoria e prática.




Então que hoje a culpa cristã venceu e eu fui para a faculdade ter meu primeiro dia de aula. Teoricamente, eu deveria estar fazendo TCC e ficando neurótica com o processo de sedução de um orientador, escolha de uma linha teórica, de um tema e de qualquer coisa implicada com bancas e bacharelados, o que totalmente não é o meu caso.
Fazendo o que eu sei de melhor, ou seja, sendo irracional, eu resolvi pagar todas as matérias que eu devia nesse semestre e minha grade semestral definitivamente está living la vida loca. Ainda que na teoria, eu seja sexto semestre, numa sala no segundo andar com meus colegas de sempre, na prática, eu sou terceiro semestre numa sala no primeiro andar com uns calouros, sexto semestre no segundo andar e nono semestre no terceiro andar com o povo já sem muito saco para a faculdade e os textos exigidos (hello, depois de quatro anos e meio de faculdade, quem pode condená-los?) e, parando pra pensar nisso hoje durante a aula de uma matéria que eu devia, percebi o quanto vai ser bom para as minhas pernas essa sequência de escadas e o quanto vai ser bom para a minha mente essa coisa de pegar matérias em semestres tão abissalmente diferentes e analisei as repercussões.
Talvez pessoas que não façam psicologia achem que os aspirantes a psicólogos são todos seres maravilhosos que querem ajudar o próximo. Infelizmente, minha observação displicente me faz crer que não é bem assim. A psicologia é uma árvore cheia de ramos ( o que talvez os alunos do terceiro semestre não saibam porque não viram nem metade das possibilidades ainda, e o que talvez os alunos do nono semestre já nem queiram mais saber, afinal eles já escolheram o que fazer da vida e quem muito se questiona sempre corre o risco de se indecidir) e cada estudante de psicologia com sua aspiração poderia (na minha mente insana pelo menos, poderia com certeza) fazer rupturas de escolha dentro do curso dignas daqueles corredores clichês de filmes de High School americanos ou de panelinhas de Malhação. A verdade é que a Psicologia é um curso defasado - em dez semestres você sai com um diploma de psicólogo podendo atender em qualquer perspectiva e com conhecimentos básicos (realmente primários, eu arriscaria dizer) sobre todas elas. Ou seja, um diploma vago. O médico que quer ser ortopedista tem que fazer residência, certo? Ele não tem um diploma de corpo humano e sai por aí futucando qualquer parte, certo? Pois um psicólogo pode mexer na sua mente/discurso/comportamento tranquilamente desde que provido de um diploma de psicólogo.
Na minha opinião essa defasagem (no sentido de não obrigatoriedade de uma especificidade na formação) é séria, mas a partir dela eu elaborei uma teoria sobre o lado babaca da psicologia que é muito boa e faria qualquer estudante de psicologia que se leva mais a sério do que o recomendado (que, infelizmente, é uma mania muito aborrecida que as pessoas ao meu redor costumam ter, ou pelo menos os meus antigos colegas da faculdade de jornalismo tinham) me jogar pedras nos comentários.
Bom, na formação final da psicologia, supõe-se que a pessoa tomou duas decisões: uma linha teórica a seguir + um ramo da psicologia para trabalhar. Os ramos são, por exemplo, psicologia analítica (Jung), psicanálise (Freud; Lacan), behaviorismo (Skinner); cognitva (Beck) ou sistêmica (Maturana) enquanto que os ramos de trabalho são, psicologia hospitalar, clínica, escolar, social,organizacional ou carreira acadêmica/ científica. Enfim, cada um pega sua pipoca e seu guaraná e faz seu combo com sal a gosto.
Como cada filosofia teórica se aporta em critérios específicos de estudo, cada uma acaba exigindo um olhar sobre o sujeito. Se, por exemplo, um behaviorista vai se interessar pelas expressões comportamentais do sujeito, um sistêmico vai querer compreender seus sistemas e reverberações (família, por exemplo) enquanto um psicanalista vai se interessar pelo discurso do cliente. Não é tudo a mesma coisa, de verdade. Eu tenho seis amigas que fazem psicologia e eu sou a única que pretende ser psicanalista - pensando sobre isso, sobre que tipo de motivação faz cada pessoa escolher a linha teórica e/ou aplicação prática que vai reger seus caminhos na profissão e me ancorando na richa infantil que rola entre behavioristas e psicanalistas, fiz a teoria mais babaca da psicologia. A teoria da escolha. Não custa muito avisar de novo, para o caso de alguém com algum grau de dislexia estar lendo, que a teoria é uma piada pronta, uma furada, construída em cima do mais alto grau de superficialidade que existe e portanto perfeitamente cabível.
Embora todo mundo ache que psicólogo viaja na maionese, o behaviorista é aquele cara prático, que quer ver o que interessa, resolver com rapidez e normalmente, de fora pra dentro. Ele só acredita em fatos, comprovações e "ciência". O gestaltista é o hippie, que acha que o todo se entrega na parte e a parte no todo e a soma das partes é mais do que o todo ZzZZzz acende o incenso. O psicanalista é o cara mais prepotente de todos, que faz do seu saber uma coisa que ninguém nunca pode alcançar, mas curte viajar na maionese, no de dentro pra fora, analisar um discursinho e analisar toda a teoria através dos reflexos sociais da cultura. As vezes pode sofrer de Freudite e achar que Freud é Deus e tudo que ele falou é ouro.
Essa "teoria das escolhas" é rídicula justamente porque ninguém consegue caber tão bem em um rótulo assim ou ser uma coisa só o tempo todo - já que somos seres sociais e nos construímos através de nossos laços. Ou seja, posso ser muito doce com fulano e extremamente ácida com beltrano, o que importa é que ambos dancemos conforme a música da nossa relação. Ainda assim, confesso que por muito tempo eu levantei essa bandeira anti-behaviorismo por aí, falando que era um saco, coisa de gente superficial e etc, mesmo que eu conheça e ame pessoas que acham que behaviorismo é vida e já decidiram que vão seguir esse caminho. Obviamente eu continuo discordando das raízes teorícas do behaviorismo - porque se opõem a psicanalise e acreditar em opostos nesse caso provavelmente me levaria a loucura, já que, por exemplo, um diz que inconsciente não existe e outro diz que inconsciente é a última fronteira e precisa ser penetrada!
Hoje eu tive aula justamente de behaviorismo, matéria que eu estava devendo, lá no terceiro semestre, com o pessoal verdinho que está começando a ver linhas teóricas e aí eu me dei conta: é bem importante que eu abra cabeça para ouvir de verdade o que aquele professor está falando, posso discordar de tudo, posso não acreditar em nada, mas preciso entender o que é aquilo primeiro, até para discordar, porque meu conhecimento de faculdade vai ser todo o meu conhecimento sobre a linha, já que especializações e derivados eu pretendo fazer no que eu gosto e me interessa. Depois de ter tomado essa decisão, me senti rica de bom senso e renovada para enfrentar o semestre, além de ter me sentido responsável pela construção do meu próprio saber que vai diretamente ser limitado pela minha escolha seguinte: olho o behaviorismo com os olhos críticos de quem quer ser psicanalista e discorda ou olho com olhos de quem não conhece e precisa descobrir? Suponho que devo olhar com o segundo, assim como desejo que as pessoas olhem a minha psicanálise assim, como até vejo os leigos cada vez mais lendo sobre, se interessando sobre, trazendo pra si e cada vez mais vejo os preconceitos das pessoas que estudam psicologia dizendo que psicanálise é falar sozinho num divã ou que não dá pra entender nada do que esses velhinhos diziam. A linha teórica é só uma lupa de aumento pra ver o mundo, cada uma escolhe a sua e sabe se lá porque cada um escolhe o que escolheu. Ou seja, linha teórica é tipo o amor, todo mundo escolhe e ninguém explica embora todo mundo tente.


Sobre a foto: Meu Freud de nariz quebrado (de tanto dar a cara a tapa, talvez?) em cima dos livros com as crônicas semanais do psicanalista Contardo Calligaris na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O limite da razão.



Olha, muitas e muitas vezes na vida eu "decidi" e me prometi alguma coisa e segui firme e adiante na decisão por, sei lá, sendo otimista, umas duas semanas. Tipo, 'não amo mais fulano', 'estou de dieta', 'vou levar estatística a sério esse semestre' e coisas assim. O problema é que eu acho que nasci pra ser contraventora ou desprovida de qualquer espécie de razoabilidade e/ou amor próprio ou vai ver que eu simplesmente não conheço o significado de força de vontade e objetivos de vida e enxergo tudo com os olhos superficiais de quem só consegue ver a primeira camada de consequências e nunca olhar adiante para os desdobramentos futuros ou todas as opções citadas anteriormente juntas, porque entre as consequências horríveis de não fazer o que eu havia decidido e me prometido, como ficar curtindo dor de cotovelo eterna, engordar e querer me matar vendo que todo mundo emagrece menos eu e largar a matéria mil vezes de modo a atrasar o curso todo e me formar tardiamente e fazer o que eu havia prometido pra mim mesma que cumpriria, eu sempre acabava sendo impelida a me agarrar nas consequências diretas do abandono da minha decisão e trata-las como bóias que me permitiam não afundar no mar e aguentar ouvir todas as queixas de minha mãe sobre a minha displicência e auto-abandono. (Minha mãe tem a terrível mania de estar sempre certa)
Vamos dizer que, a essas tragédias cotidianas eu já estava habituada, o duro era sair do roteiro e encarar de fato as outras coisas - e o mais duro ainda é que embora as consequências ruins sejam bem ruins, as consequências boas que eu teria se eu tivesse me mantido nessas "decisões" de duas semanas seriam ínfimas (percebe aqui os olhos acostumados a olhar apenas para um passo no futuro e não para a amplidão?). Tipo, abrir mão de todos os meus sentimentos e ganhei uma solidão (sim, eu nasci numa novela mexicana de quinta categoria e as vezes acho que sofrer sozinho é viver, juro), abrir mão de comer tudo que eu queria e abrir mão da preguiça e de ficar em casa de pijama pra fazer dieta e malhar e emagrecer dois quilos quando eu preciso emagrecer uns vinte ou abrir mão de dormir até as dez da manhã pra ir aprender a mexer numa calculadora científica.
Senta lá, sabe Cláudia, porque todas as vezes que eu desisti foi por isso: esforço irracional para abrir mão de coisas boas em prol de coisas que as pessoas dizem que são boas. Ou abri mão de coisas boas buscando coisas muito boas mas que demorariam muito a vir - devem passar uns dois ou três anos até que eu perca vinte quilos, vai passar seis meses ou mais pra que eu entenda alguma mínima coisa de estatística e vai demorar uns quinze anos pra eu entender que um coração ferido também tem direito de tentar fazer da vida amorosa alguma coisa útil de verdade. Até aqui tinha sido assim. Aqui aqui os olhos rasos saíam do horizonte ao ouvir o sininho do isopor de capelinha da praia. Mas aqui as coisas mudam ou pelo menos começam a mudar, já na forma de enxergar os problemas. Aqui aconteceram coisas que fizeram com que a minha percepção mudasse. Aqui eu começo a ter que retroceder pro passado e levar todas as coisas com a maior seriedade possível pra poder caminhar rumo ao futuro. Aqui eu peço penico rosa, coloco entre as pernas e saio pianinho. Aqui eu vendi a alma ao diabo, pendurei a plaquinha de "fechado para almoço" no pescoço da Juliana que todo mundo conhece e um beijo, tchau. Saudade pra quem é de saudade. Saudade pra quem tem tempo e disposição pra isso - o que não é meu caso no momento.
Acho que o que eu preciso mais é transformar estas coisas em rotina. Transformar a vida em rotina, as coisas em obrigações que eu preciso fazer, tipo escovar os dentes. Uma rotina inquestionável. Aquela coisa que a gente apenas faz porque já tá acostumada a fazer e então não fica questionando o custo X benefício daquilo e nem chorando pelos cantos porque dormir ou comer são melhores do que aula chata as sete da manhã. Espero conseguir fazer esta rotina, espero conseguir seguir minha rotina, espero ter mais objetivos e consequentemente mais força de vontade esse semestre, esse ano, essa encarnação, quem sabe? Só sei que eu juro solenemente pra mim mesma que eu vou ser uma velhinha com rotina, horário de dormir, quantidade de filmes e livros, ginástica e estudo por semana. E é assim que a banda vai tocar. E todo o resto vai ter que se encaixar nas brechas que surgirem na minha agenda. Dessa vez acho que é um beco sem saída. Espero que seja mesmo, porque, se tiver saída, eu já sei que eu escapo. Queria poder conversar isso com alguém. Mas a verdade é que essas personagens atrapalhadas e que não sabem o que fazer com a própria vida e o próprio umbigo só fazem sucesso em livros e filmes tipo Bridget Jones e Becky Bloom. Na vida real, ninguém troca uma editora chefe bem vestida e de cabelo impecável por uma doida ruiva endividada. Nem tampouco alguém em sã consciência deixaria de se relacionar com uma advogada séria, inteligente e independente para viver do lado de uma gordinha fumante que usa calcinha de vó e paga mico em rede nacional. Saudade da terapia.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lista do mês. #01

Depois de ler o post da Juliana Cunha no "Já matei por menos" falando sobre a relação de comprometimento com as próprias promessas para o ano novo, eu me motivei a fazer minhas próprias listas para me perceber cumprindo o que eu prometi a mim mesma. Elegi 2010 como o ano da cultura, mas quando elegemos algo ou alguém, precisamos estar sempre cobrando os resultados.
Os livros que eu li/lerei estarão na estante, me lembrando que foram lidos, mas como vou me lembrar dos filmes que eu vi?! Portanto, inicio a "Lista do mês #" a qual eu (espero) prometo ser fiel, amar e respeitar na saúde e na doença em todos os meses da minha vida, amém. Então, chega de chorumelas e vamos a lista.

(ps. é, isso aqui tá parecendo o blog do @sobaminhalente né?)

Filmes de Janeiro:

No cinema:

- Alvin e os esquilos 2, Betty Thomas
- Avatar, James Cameron
- EX!, Fausto Brizzi
- Invictus, Clint Eastwood
- Nine, Rob Marshall
- Sherlock Holmes, Guy Ritchie
- Terapia para casais, Peter Billingsley
- Up in the air, Jason Reitman

No Dvd:

- A proposta, Anne Fletcher
- Delírios de Consumo de Blecky Bloom, P.J. Hogan



Fico feliz tendo visto dez filmes esse mês - tenho certeza de que não vou repetir o feito em nenhum outro mês esse ano, principalmente encarando o fato de que eu odeio alugar filme pra assistir em casa e quase sempre durmo. Eu adoro comédia romântica, então, filmes como "A proposta", "Delírios de Consumo de Becky Bloom" e "Terapia para casais" se inserem perfeitamente na minha necessidade de água com açucar correndo no sangue - contudo, só A proposta é gostosinho de assistir. Porém, os filmes que mais valeram o ingresso do cinema nesse mês de janeiro foram, nesta ordem: Invictus ( Clint Eastwood na sua melhor forma, Morgan Freeman idem) ; Up in the air (Drama sarcástico com pano de fundo econômico e George Clooney) e EX! (comédia romântica italiana que tem como tema o que se passa depois fo dim das relações).

Fica ai a recomendação para quem quer ir no cinema e tá meio perdido pra separar o joio do trigo.

#promessapara2010


Esse ano eu me comprometo a ler pelo menos vinte livros. Um já foi, faltam os próximos dezenove.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Voice inside my head.




"dont waste your time on me you are ready the voice inside my head. miss you. miss you."

Senão.


"o mau da sociedade é a falta de comprometimento. "é melhor eu não me envolver, senão acabo sozinho e triste", "é melhor eu não convidar meu vizinho para almoçar, senão ele vai ficar mal-acostumado", "é melhor eu não comer esse brigadeiro, senão eu tenho que ficar mais uma hora na esteira malhando".

e de tanto falar senão perdemos uma coisinha bem pequenininha chamada vida."

Post copiado na íntegra, do No meio do caminho tinha um Pedro ou, copiado na íntegra do amigão sensato @pedrohijo. Só porque ele é foda e fala tudo que eu queria dizer.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Words X Feelings



Conheço bem essa batalha.Conheço bem essa conversa.
(Clica ai na imagem que aumenta e fica melhor pra ler!)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Intimidade.

Intimidade eu sempre tive foi com as palavras. Desde pequenininha eu já era falante, ainda que balbuciante. E desde sempre, tento fazer da minha arma mais forte - a palavra - uma extensão do meu sentimento, quero palavras que abracem as pessoas que eu amo quando meus braços não podem abraça-las. O resto das intimidades virou uma construção contínua mesmo. Mas, eu posso ser a exceção até, mas eu adoro intimidade, acho intimidade uma delícia. Não existe nada mais compensatório do que simplesmente poder se ser ao lado de alguém e assim ser amado e acompanhado. Beijar, abraçar, agarrar, transar - tudo isso é uma delícia. Mas, beijar com aquele beijo que você sabe que excita a pessoa, abraçar porque você só de olhar sabe que a pessoa não está bem, agarrar num lugar que você sabe que a pessoa nunca tinha imaginado e transar em todas as posições estranhas possíveis e poder dormir sorrindo depois, sem pensar no que o outro está pensando - eis o charme imprescindível da intimidade. Intimidade é conhecer e não apesar de, mas aceitando o que se é. Eu gosto da minha vida com gosto e cheiro de intimidade - seja cheiro de meia de chulé no meu cesto de roupas, seja escova de dentes molhada na bancada da minha pia ou a permissão para acordar descabelada, cheia de maquiagem borrada ou qualquer coisa. Até mesmo tenho absoluto tesão por pijamas, acho uma delíca que minhas amigas ouçam que eu falo sozinha dormindo, que meus amigos me visitem no hospital com meningite - e com cara de doente, e com aparência de doente, e sem nenhuma paciência para vaidades (sempre me sinto assim quando fico doente), acho maravilhoso compartilhar tristezas, vômitos e palavrões. Sossego desse mundo de aparências assim - deixando minha alma não pensar em frescuras por algumas horas, deixando minha alma colocar os pés em cima da mesa, bocejar e fazer coque no cabelo. Intimidade é a minha salvação ante a solidão. Intimidade, não é uma merda. Uma merda é o nosso medo do vínculo afetivo e amoroso, medo de coisas que nos permitam ficar e de que alguém nos conheça como somos - afinal, da porta para fora, todos são lindos, loiros,escovados e de mini-saia. Com essa concorrência utópica, como saber amar o chulé?

Jabá.



Bom, como toda pessoa, eu tenho mais de um lado, e como toda pessoa bem terapeutizada eu tenho bastante contato com todos os meus lados - até os incombináveis. Então, pela internet, aqui, por onde a gente se vê, da pra me achar escrevendo em mais dois sites, de formas bastante distantes, fora esse diário-chorumela que rola por aqui. Dá pra me achar ainda:

1) No coletivo engraçadinho que explora as aventuras e traumas de infância, numa versão simpática "It Should Be Illegal" falando abobrinhas, contando casos e fazendo piadas com uns amigos queridos e divertidos.
2) No "Conversa de Botas Batidas" falando de "memórias, crônicas e declarações de amor", numa versão meio poeta de mesa de bar. É (era?) um blog que se pretende (ia?) literatura, poesia, reflexão, composição.

Já dizia Leminski: "Eu escrevo apenas. Tem que ter porque?"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ah, o amor...




"É um vício necessário. Talvez o que faço melhor. Fico pronto para me despedaçar.
Não estou sozinho. Recebo companhia a cada minuto na nau dos insensatos.

No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá que abandonar a filosofia pessimista, a inteligência solteira do botequim e se declarar apaixonado. Terá que ser incoerente, contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a certidão negativa, a proteção bancária, os manifestos de aversão ao casamento e filhos.

Não dá para ser esperto sempre. Não dá para ser experiente sempre. Don Juan e Casanova também se quebraram. Napoleão e César também foram derrotados na intimidade. A ingenuidade é um poder terapêutico. Nada pode ser mais traumático e mais libertador dos costumes. É um instante definitivo e raro no relacionamento. Quando confiamos que será diferente, que somos eleitos por uma constelação de símbolos e casualidades, quando desistimos das armas e das reservas para se apresentar absolutamente disponível e vulnerável. Não há mentiras e formalidades, frases espirituosas e comentários sarcásticos. Há apenas uma burrice infindável, o beiço e a intenção de se entregar para uma mulher seja como for.

Pena que a ingenuidade tem que acabar mal. Caso contrário, não era ingenuidade, era sabedoria."

Fabrício Carpinejar, " A culpa é do Keep Cooler"

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Seleção de estágio.




Eu acho que o problema é de puro encaixe: como um parafuso largo demais numa porca pequena ou vice-versa. Por outro lado, é fato que eu não gosto de coisas pré-definidas: "ah, para ser um bom < insira qualquer profissão em qualquer área> você tem que ser < insira qualquer adjetivo de qualquer espécie>". Discordo: para ser um bom profissional empregado, acho que você tem que levar seu emprego a sério, assumir suas responsabilidades, saber se comunicar com as pessoas ao seu redor, e bom: trabalhar duro com o melhor de si, dentro das potencialidades e conhecimentos exigidos. No fundo, acho que DEVERIA tanto fazer se você prefere Truffaut ou Fellini. Isso, se tratando de empregos - e não de vocações. Vocações são para os grandes, pessoas que nascem com um dom que precisa ser empregado em determinada profissão e pronto - o dom antecede a profissão, a escolha, o emprego. O dom constitui a pessoa. O emprego é só uma função que você tem na vida e tem que cumprir: chegue nove horas, arrume a papelada, assine os documentos, revise os textos, faça café e sirva para todos, atenda pessoas, traduza textos, faça telefonemas, mande emails, enfim, na minha opinião um emprego é algo que ocupa seu tempo, seu comportamento e te dá responsabilidades e obrigações e algo no qual você deve se esforçar para se desenvolver o máximo. Mas, assim, na grande maioria dos empregos pode ser que você se destaque imensamente se você tiver um DOM mas assim, tirando se você pretender ser um líder humanitário que prega a paz, presidente da áfrica do sul tentando curar feridas do Apartheid ou ser uma freira na Bahia que tenta promover saúde e carinho para os mais necessitados - suas características ou dons podem ser exercitados, transformados, melhorados, reclassificados e bem menos definitivos para a contratação. Ok, recomenda-se um psicólogo que goste de ouvir, um advogado que gosta de ler, um professor que sabe ensinar, um físico que sabe calcular, um motorista com carteira de motorista e por aí vai, o que não rola é acharem que você deve coisas demais para cargo de menos.
Daí eu vou nas seleções de estágio (bye bye procrastinação, olá dinheiro na conta, oioi tardes ocupados e cabeça idem) mas eu me sinto completamente aleatória, patinho feio, sabe? Pra exemplificar, é como se pela pessoa que eu sou, exatamente, pela pessoa que eu sou e não pelo que eu sei ou não sei (que ok, admito, interfere muito sim, e eu não sei mesmo quase nada, mas a idéia de um estágio não seria mesmo aprender?) é que o estágio não vai rolar. Numa aproximação mais banalizada, é como se eu tivesse nascido para a pediatria, numa paciência infinita para choro de criança e estivesse tentando me empregar para ser, sei lá, cirurgiã plástica e precisar ser objetiva e sair cortando a pele de todo mundo por aí. Posso aproximar dizendo que é como se eu tivesse estudado direito de família e agora tivesse resolvido tentar uma vaga em direito penal. Mas na verdade, embora o conhecimento que as pessoas que amam a área de RH tem e eu não tenho, seja relevante, eu sinto que eu perco apenas por ser quem sou: não, eu não sou exatamente objetiva. também não sou exatamente prática e tampouco sou um exemplo da racionalidade. Sou sensível sim, gosto de ouvir as pessoas sim, gosto de pensar nas coisas sim. Contudo, nunca deixei de entregar um relatório no estágio antigo, nunca deixei de estar lá na hora certa, de fazer as coisas que precisavam ser feitas, de participar do planejamento, da execução, das reuniões com todos os envolvidos - do molequinho de comunidade que o projeto atendia ao diretor do museu que comandava o projeto. Nunca deixei meu irmão morrer de nada que eu tivesse que resolver rápido - uma febre, um corte, qualquer coisa que fosse necessariamente urgente - resolvo tudo, mas não por isso me acho uma pessoa prática e objetiva, porque me importo sim em como as coisas vão reverberar. Não posso ser boa trabalhadora porque sei chorar? Não posso ser eficiente porque gosto de conversar? Não presto pra fazer palestras motivacionais porque, porque eu gosto de ler, as pessoas supõem que eu não sei fazer um gráfico de forma rápida?
Minhas amigas de RH vão dizer que não é bem assim. Que eu estou exagerando. Talvez vão explicar as necessidades dessa praticidade, dessa objetividade, dessa necessidade de tudo isso... Talvez elas tenham razão mesmo. Talvez seja só essa minha desilusão. Talvez seja só essa certeza de que eu nunca vou estagiar fora da faculdade, porque sim, eu gosto de clínica, gosto de ler, gosto de falar com as pessoas, resolvo as coisas com calma... Talvez seja só esse ímpeto de ainda achar que eu não vou me vender em troca de salário nenhum, desculpa. Quem tem blog afinal, desabafa como quer, né. Mas no fim, é sempre a mesma coisa: quem tem problema é o Haiti.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sonho [2]

Eu e as minhas amigas resolviamos abrir um negócio próprio. Íamos até o Salvador Shopping (maior shopping de Salvador), na ala nova e começavamos a pesquisar as opções, os preços, o lucro, o investimento inicial etc. Escolhiamos abrir uma PISTA DE SKATE EM FORMA DE TÚNEL NO SHOPPING e o investimento inicial de cada uma de nós era de 38 reais - porque, PASMEM, a pista já estava lá, nós não precisavamos construir nada. Depois disso eu saia andando pelo shopping, só para ter certeza de que não havia nenhuma outra pista melhor localizada. Então, de repente, eu estava no carro do professor que eu desejo que oriente minha monografia (vamos lá, papai do céu) junto com ele e sua namorada. Ele estava dirigindo, eu estava no banco da frente e sua namorada estava atrás. Éramos todos psicologos e eu estava levando eles para a FESTA DE INAUGURAÇÃO DA PISTA DE SKATE. Fomos o caminho todo discutindo as diferenças elementares entre Bion, Klein, Winicot e Freud. GARGALHAMOS enquanto discutíamos Lacan. (Lacan sempre muito engraçado né, quem conhece BEM sabe). Chegamos a inaguruação, eu apresentei eles a todas as minhas amigas e a minha mãe. Tinha balões e "brous" andando de skate com boné para o lado. Fim.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A solidão essencial.

Uma introdução só pra dizer que sou leitora assídua do Ivan, que escreve todas as quartas na sua coluna no site da revista Época e vale ser seguido no twitter em @IvanHM. Acho muito legal o jeito com que ele aborda as relações humanas, os nós do cotidiano e tudo o mais, por isso, segue na integra aquele que é o meu texto favorito dele. Quem gostar, vale a pena buscar conhecer mais.


A solidão essencial
O amor que nos resolve a vida é uma promessa enganosa
por Ivan Martins (Diretor executivo de Época, em 06/01/2010)

"Acho que foi um professor de cursinho quem contou em classe o mito dos andróginos. Parte homem e parte mulher, esses seres eram tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus. Irado, o patriarca do Olimpo disparou raios que separaram em duas cada uma das criaturas perfeitas. Desde então, elas vagam pelo mundo em busca de sua metade. São solitárias e incompletas. Somos nós.

Não sei o que os gregos queriam dizer ao criar essa lenda, mas a maneira como nós a interpretamos, modernamente, é muito clara: existe alguém lá fora que nasceu para nós. Enquanto não acharmos essa metade (o amor verdadeiro) jamais seremos felizes.

Muitos de nós acreditamos nisso o tempo todo. Outros acreditam apenas de vez em quando. Raro é encontrar alguém totalmente imune a essa espécie de esperança (ou seria armadilha?) romântica.

Mas eu às vezes me pergunto se essa é uma ideia construtiva. É saudável imaginar que a nossa felicidade não depende de nós, mas, sim, de outra pessoa qualquer? Mesmo sem tomar o mito dos andróginos ao pé da letra, milhões de pessoas adiam o futuro diariamente à espera de que a vida lhes traga um grande amor, aquele que vai colocar tudo nos eixos.

Eu pergunto de novo: essa é uma ideia saudável?

Há um livro do qual eu gosto muito que trata dessa questão – a ideia do amor romântico – como nenhum outro. Chama-se “Sem fraude nem favor, estudos sobre o amor romântico” e foi escrito pelo psiquiatra e psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa, uma das pessoas que melhor fala dos sentimentos e das emoções no mundo real (que é o contrário do mundo idealizado no qual a gente, sem perceber, passa a maior parte da nossa vida).

Nesse livro, Jurandir afirma que o amor romântico – ao contrário de tudo que nos dizem – não é natural e universal, não é incontrolável e nem é condição essencial à felicidade humana. Isso seriam apenas coisas em que se acredita.

Não vou reproduzir os argumentos minuciosos e nem a prosa erudita do escritor, mas essencialmente ele afirma que o amor exaltado, sublime e raro que nós endeusamos é uma invenção social (como a música) e uma crença (como a religião) que pode perfeitamente ser questionada e modificada. Não existe um jeito eterno e imutável de amar, diz ele. O amor e a forma de encará-lo sempre variaram ao longo da história. Se nosso jeito atual de amar nos parece opressivo, antiquado ou insatisfatório, que tal tentar outra forma de amar?

É estranho pensar no amor dessa maneira, não? Estamos acostumados a vê-lo como algo imutável, quase sagrado, que as pessoas têm ou não têm, conseguem ou não conseguem. Mas claramente não é assim. Ao redor de nós existem pessoas que tratam o amor de forma muito diferente entre si. Fulano é muito romântico, quase tonto, enquanto fulana é de um pragmatismo inquietante: sabe exatamente o que deseja e vai atrás. Essas são diferenças reais, que mostram que o bicho amor não é exatamente o mesmo para todo o mundo.
Quando se compara o nosso modo de agir e pensar com o das outras culturas, as diferenças ficam ainda mais óbvias.

Lembro de ter tido, anos atrás, uma conversa muito interessante com um amigo nissei que havia morado no Japão. Éramos os dois casados e eu me queixava das dificuldades do casamento. O amigo, mais velho, respirou fundo e me disse que, no Japão, eles achavam que casamento era uma coisa muito séria para ser decidida por paixão. Se você ia passar a vida com alguém, as compatibilidades eram mais importantes que o desejo.

Na hora achei aquilo esquisito, mas hoje percebo que ele estava sugerindo apenas outra forma de olhar para a mesma situação: diante da escolha do casamento, que tipos de sentimentos são mais importantes?

Nos últimos dias, eu tenho pensado muito em um aspecto particular da nossa ideologia do amor, aquele que diz que é impossível ser feliz sozinho. Não é só a música de Tom Jobim que afirma isso. Tudo que nos circunda brada a mesma mensagem. Ela está nos filmes, nas novelas, nas conversas. Ausência de parceiro é sinônimo de infelicidade, fracasso ou esquisitice. Ou tudo isso junto.

Talvez seja verdade que as pessoas sem parceiros tendem a serem menos felizes, mas o contrário certamente é falso: estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade.
A gente sabe disso, a gente vive isso, mas, socialmente, a gente não divide essa informação. Para todos os efeitos públicos, vale o seguinte combinado: se a pessoa está casada, ou tem um namorado bacana, sua vida está “resolvida”. Mas isso é falso, não?

Namorei uma vez uma moça cujo pai, um sujeito espetacular, casado com uma mulher encantadora, estava há meses numa terrível depressão. Eu olhava para o sujeito e não entendia. Ele tinha mulher, filhos, casa, profissão, amigos e... tinha desmoronado. Os motivos íntimos da derrocada talvez nem ele soubesse, mas a lição para mim foi clara: nossas questões interiores não se resolvem com a parceria amorosa, nem mesmo com a família.

Não adianta nos cercamos de um cenário de propaganda de margarina (mulher, filhos, cachorro, condomínio) porque, ao final, nossa felicidade depende de nós, das forças interiores que nós somos capazes de mobilizar. As pessoas que amamos nos ajudam, mas elas não substituem nosso amor próprio, nossa motivação e a nossa estabilidade. Precisamos das pessoas, mas precisamos ainda mais de nós mesmos.

É por isso que a promessa de felicidade amorosa às vezes me incomoda. Ela é falsa. Ela é uma forma de propaganda enganosa. Ele conduz as pessoas numa procura inútil por alguém que as faça sentir inteiras e completas, quando, na verdade, essa sensação de inteireza talvez seja inalcançável.

Se a gente olhar de novo para o mito do andrógino, talvez haja nele outra sabedoria a ser extraída: a de que nós, homens e mulheres, somos criaturas intrinsecamente solitárias. Vivemos em grupo, precisamos do grupo e buscamos conforto na intimidade do outro, no amor. Mas talvez seja da nossa natureza jamais nos sentirmos inteiros e completos.
Talvez haja em nós uma inquietação inextinguível e uma angústia que advêm da nossa própria consciência e que nos torna humanos. O amor seria então um alento, um consolo, uma fogueira que nos protege do frio. Mas o frio está lá. E a melhor medida da felicidade talvez seja a forma como lidamos com ele. Como indivíduos, não como casais."