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sexta-feira, 12 de março de 2010

Carpinejando.



(Fabrício Carpinejar, pra quem não sabe, é um escritor & poeta gaúcho maravilhoso na arte de ver lirismo e doçura nas arguras cotidianas - um sobrevivente num mundo cada dia mais cinza. Insistindo na questão de fazer títulos que façam alusão a jeitos de escrever de certas pessoas, digo: quem carpineja, escreve com doçura, carinho e frescor sobre as dorzinhas e pontadas que a vida exclama a toda hora. Eis o que pretendo fazer abaixo. Estou "carpinejando")

As pessoas, de maneira geral, sentem medo da tristeza e da solidão. Não pretendo ser uma exceção mas gosto de usar a aquarela e o pincel para inventar novas combinações de cores: para quê usar o azul se posso viver o verde e o amarelo misturados para obter o mesmo resultado? Há dores que são urgência, emergência, eminência. Não há como escapar. Deformam o coração, apertam o peito, mas não precisam ser apenas tristes. Nada precisa. Não existe 'precisar'.
A maior inimiga da minha tristeza é a esteira de ginástica. Como, em tristeza sã, passar quarenta minutos caminhando em velocidades alternadas sem chegar a lugar algum sem comparar com o processo que é a vida? Andar, andar, andar, pensar que precisa-se correr para chegar logo e ver que não há onde chegar. Em que ficar pensando durante esses quarenta minutos? Eu não. Prefiro uma tristeza-alegre.
Eu, que nunca fui muito dada a maquiagens, agora ando por aí com os olhos vermelhos, marejados. É uma melancolia poética. Olhos que viram muito sabem fazer chover, mas também se apertam para sorrir. A tristeza é muito engraçada, é nosso coração, em sequência, se colocando para fora de nós e se transformando em coisas que não são e que não somos: o que era concreto cinza, conjunto de pilastras e listras amarelas, mais um estacionamento, é agora um lugar em que se sorri entre lágrimas quando o coração aperta e lembra que ele, justo ele, nunca sabia entrar no estacionamento e achar a sua vaga favorita. Se perdia, rodava, reclamava, ora era orgulhoso e se resusava a pedir ajuda, ora dizia "você pode me dizer onde é que eu devo virar?". Tristeza-alegre é saber que a maquiagem vermelha, o concreto cinza, o barulho da chuva, o videogame do quarto do lado, os livros da estante e até os pensamentos da minha cabeça por um tempo não serão só o que são, não serão só meus. Tristeza-alegre é não dar sentido ao que não tem sentido, mas se permitir viver com intensidade o que é sentido. Mas a vida vai correndo para não chegar em lugar nenhum e eu preciso ter algo em mente para o enquanto isso. Tristeza-alegre é a roupa do Pierrot, em dia de carnaval, chorando pelo amor da Colombina - ainda que haja choro, estou com a roupa de palhaço e ainda é carnaval.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"O seu problema é você mesmo"



Depois de assistir "Curtindo a vida adoidado" pude pensar sobre muitas questões como a importância da sorte, como o mundo era mais enrolável quando não haviam celulares e a eterna disputa entre irmãos. Tópicos que certamente renderiam uma ótima análise. Mas não é sobre nada disso que eu quero falar. O fato é: eu nunca me diverti tanto quanto Ferris Bueller. Eu sei que eu só tenho vinte e um anos mas isso não impede minha hipótese de ser absolutamente comprovada. Ferris se diverte porque ele simplesmente não tem nenhum potencial para a culpa, para a reflexão ou para arriscar pensar em qualquer espécie de consequência. Ele se diverte por pura dispretensão. É o que ele de melhor sabe fazer, e com maestria, o faz.
Pegar o carro do meu pai, mentir para a minha mãe, cabular aula, convencer meus amigos a fazer coisas que ele a princípio não querem: ok. Mas como me divertir com o carro do meu pai enquanto morro de medo de que aconteça algo com ele e por conseguinte comigo? Como mentir para a minha mãe sabendo que ela vai ficar tão magoada? Eu faço por orgulho, não por prazer. E quando deveria ser por prazer, morro de medo. De gostar da disgressão, sei lá, ou de passar a não me importar com os sentimentos dos outros.
Verdade seja dita: eu sou a pessoa na qual colocaram o papelzinho "responsável". Minha mãe daria muita risada e diria que isso é mentira porque eu deixo as coisas bagunçadas, estudo de última hora e odeio ir ao médico e tomar conta da minha própria saúde. Mas, não conheço ninguém que se importe mais com o que os outros vão pensar, o que os outros vão sentir, como os outros vão interpretar e no que isso pode vir a dar do que eu. Alguns (pessoas mais velhas e caretas, provavelmente) vão chamar isso de juízo ou maturidade emocional, eu chamaria de coeficiente de destruição da diversão - beirando virar a babaca que diz pro amigo que está dirigindo "cuidado, você está muito rápido" ou "por que você não trouxe o casaco?".
Como posso me divertir despretensiosamente se meu Camerom interior não para de pensar nos possíveis jeitos que meu pai me esfolará sequer se acontecer algo com meu próprio carro - quiça com o dele? Como posso me divertir se sempre estou comprometida com os sentimentos do meu namorado, das minhas amigas, dos meus amigos e da minha família? Como posso me divertir se ao ser descoberta posso desapontar tantas pessoas que esperam coisas de mim? Quando foi que eu fui infame a ponto de permitir que esperassem? Como posso me divertir se as consequências disso podem machucar alguém? Quando assinei o atestado de 'babá cooperante' assinei o de 'pessoa mais sem sal do mundo' sem saber?
Quando o cara de Two and a Half man diz pra a irmã de Ferris que o problema é ela mesma, ilumina tudo e ela consegue dar uns pegas, dirigir alucinada e se divertir sacaneando o diretor do colégio. Vamos ver o que ( se é que) eu consigo aprontar agora que sei que o problema sou eu mesma. Twist and shout.


ps. Desconfio que isso até que ficou meio queixoso, mas a sensação que ficou é de vontade urgente de me divertir - o que é muito bom.

terça-feira, 9 de março de 2010

/Sobminhalentezei.


Daí que eu sobminhalentizei ("sobminhalentezar": 1 - ficar viciado em filmes e seriados de maneira realmente obcecada ; 2 - achar que o cinema é a sétima arte que tem a mensagem que dá sentido ao fenômeno vida ; 3 - referência ao site de um colega que faz critícas sobre cinema e séries com propriedade e público fiel e cativo (Sobaminhalente) e cujos nossos outros colegas adoram abusar e sacanear com qualquer coisa referente ao vício pelo cinema capaz até de interditar a pipoca alheia) e aluguei quatro filmes para essa semana.
Estive lendo uma lista de filmes indicados ao Oscar pela trilha sonora e me bateu uma nostalgia do que vi sem viver e caí na rede oitentista da juventude que se divertia: "De volta para o futuro" ; "Curtindo a vida adoidado" e "Os caça-fantasmas" já estão na estante, esperando pelo momento certo de serem assistidos pelo puro prazer da sua despretensão.
Por outro lado, fechando os quatro filmes que vou assistir até segunda, Silêncio dos Inocentes, que eu nunca vi (admito, não crucifiquem) e porque essa onda de perfil criminal, comportamento dos psicopatas e tudo o mais tem me interessado demais e eu tenho lido muito sobre isso, livros, artigos, etc.
Para completar o novo estilo de vida, é só ficar aguardando freneticamente o episódio dezessete da quinta temporada de Criminal Minds, que sai amanhã nos EUA e até o fim de semana eu devo achar legendado.
Vida social no fim de semana? Sair com amigos? Conversar com pessoas? Ver a cara da rua? Tudo isso é para fracos. Ou para o Ferris. Os bons (e os sem outras opções) ficam com a arte, o cinema, a literatura. (Anham Claudia, senta lá!)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Bem vindo a Salvador.


isso é que é música (not)


Obviamente, todos os dias eu vou com mp3 e fones de ouvido para a academia porque não rola de ficar malhando e ouvindo música eletrônica ou axé. Posso me vender ao sistema corporal que exige que meu corpo seja assim e assado para eu ser feliz, mas o sistema sonoro baiano que exige que eu curta tal tipo de música pra ser incluída e animada eu faço questão de continuar desdenhando e não tô nem aí. Sem placa de "vende-se".
Daí que hoje por causa da pressa eu esqueci de levar meu mp3! Cheguei na academia, subi na esteira e vi que tava tocando Kid Abelha no Dvd. Me lembrei que podia ser muito pior, então eu fiquei feliz. Rapidinho, trocaram o dvd. Vi um cara entrar de terno. Um outro de blazer. Somei quatro barbas. E pensei "não pode ser, puta que pariu, é Los Hermanos?". Malhei cantando. Feliz da vida por estar na academia de ginástica, local ocupado por pessoas que eu pessoalmente discrimino e estar ouvindo uma música com letras que fazem sentido! Ergui as mãos e dei glória a Deus.
Alegria de pobre dura pouco, é o que dizem. Parece que enquanto eu malhava cantando, algumas pessoas menos nobres de espiríto organizaram um motim e o dvd foi trocado. Ouvi as pessoas pedindo "Chiclete com Banana". Começou a tocar animadamente no DVD. Me resignei calmamente, já estou acostumada a ser minoria na Bahia, que diferença ia fazer ser minoria na academia? Comecei a ouvir as conversas sobre o nível das pessoas que frequentam a Trivela ( festa do Asa de Águia, para alguma boa alma que não saiba) e o Ensaio Geral (festa do Chiclete com Banana), as conversas sobre a coleção de bandanas de Bel e seu patrimônio e algumas comparações entre Los Hermanos e Detonautas.
Eu podia ter ficado na minha. Com certeza eu podia. Mas é o que minha mãe diz de mim todo santo dia: sou radical demais. Louca, alguns dizem também. E eu tava lá em cima da esteira, já era a gordinha freak que conhecia Los Hermanos, já era a gordinha freak que sabia cantar quando Toni Garrido cantava música de Belchior no DVD, já era a gordinha nerd de óculos verde da academia então, depois de um breve período tentando controlar meus instintons antipáticos, liguei o foda-se e fui ser feliz.
Chamei o dono da academia (a.k.a um dos melhores amigos de meu pai, que também malha lá nos finais de semana em que não está morando na boa e recheada de museus, cidade de São Paulo) e disse alto, bem marginal, bem antipática, com um tom quase de como se eu fosse superior só por gostar de uma merda de banda (ó, grandes merdas hein? ZzZZzz) bem perto da galera feliz que curte axé, balança o bracinho e canta bem alto: "Poxa, meu querido. Você tem um dvd de Los Hermanos! Que coisa ótima! Tô super feliz que você é amigo de meu pai. Futuro promissor!"
Coxixos pela academia. Pronto, agora eu sou a gordinha nerd excluída antipática caída de Marte da academia. Mas grandes coisas, eu já era tudo isso quando resolvi nascer na capital do axé, mesmo, então, não mudou tanta coisa. Me senti vingada. E me senti bem vinda a Salvador. E nunca mais esqueço o mp3.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ana Silva, Márcio Costa, Luisa Tavares, Benedito Souza...


Larissa Seixas, Edmundo Marcos, Vinicius Silva, Brian Macedo, Pedro Hijo, Turan Dias, Simone Brasil e Alexandre Hartman no meu aniversário hihihi.

Só eu acho nada a ver pegar uma foto com os AMIGOS e legendar chamando cada um pelo nome + sobrenome? Na hora de beber, na hora de chorar, na hora de dar risada, na hora de ir pro cinema... qual é a hora em que você chama seu AMIGO pelo nome mais sobrenome? Essa formalidade não se opõe diretamente a intimidade que a amizade convida? É questão de status? Tem a ver com a idade? Ou com a profissão? Intimidade é old school? Alguém me explica, por favor?

Poema em linha reta.



POEMA EM LINHA RETA
Alvaro de Campos

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."



E é assim que a (minha) banda tem tocado no rádio.

quarta-feira, 3 de março de 2010

MAM - BA.










Vasculhando uns arquivos antigos no computador, achei umas fotos antigas de uma ida ao Museu de Arte Moderna da Bahia com minha amiga (e praticamente jornalista já) Paula, dos tempos em que eu trabalhava numa ONG que fazia trabalho com as crianças da comunidade do Unhão.
Achei as fotos tão lindas e me deu uma saudade tão grande desse tempo que a gente ia pro Jazz do pôr do sol do museu, via as exposições, tomava uma caipirinha por lá, comia um acarajé, dava risada, conversava, que, bem, aqui estão os registros.


* Todas as fotos foram tiradas por Paulinha.

terça-feira, 2 de março de 2010

Hakuna Matata.


Mafalda tem a irritante mania de sempre ter razão.

Embora eu tenha que passar o dia me dividindo entre os rótulos de cdf interessada na faculdade e geração saúde obediente na academia, o que eu queria mesmo nesse momento eram vinte e quatro horas de alternância no desfrute dos meus vícios (sim, eu me lembro que férias só em julho, obrigada por perguntar). Meu namorado sempre ri de mim, do jeito que eu gosto das coisas e me vicio nelas com facilidade. Eu sei, é quase patológico.
Nesse momento, nos intervalos da rotina faculdade-check up médico-academia eu só ando fazendo três coisas: lendo todo o possível de Criminal Minds que existe na internet enquanto espero o episódio 05x16 sair nos EUA, alguém legendar e eu poder baixar ; ouvindo o cd Iê Iê Iê do Arnaldo Antunes o tempo inteiro enquanto dirijo pra qualquer lugar (dei umas três caronas pra minha mãe e ela não aguenta mais, mas tem um mês que só toca ele por lá, recomendo muito, para todos.) e ler o maravilhoso "Toda Mafalda - da primeira a última tirinha" que meu (querido) namorado me deu de aniversário de namoro.

Criminal Minds + Arnaldo Antunes + Mafalda = isso é que é viver, é aprender, hakuna matata.

segunda-feira, 1 de março de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O lado babaca da psicologia - teoria e prática.




Então que hoje a culpa cristã venceu e eu fui para a faculdade ter meu primeiro dia de aula. Teoricamente, eu deveria estar fazendo TCC e ficando neurótica com o processo de sedução de um orientador, escolha de uma linha teórica, de um tema e de qualquer coisa implicada com bancas e bacharelados, o que totalmente não é o meu caso.
Fazendo o que eu sei de melhor, ou seja, sendo irracional, eu resolvi pagar todas as matérias que eu devia nesse semestre e minha grade semestral definitivamente está living la vida loca. Ainda que na teoria, eu seja sexto semestre, numa sala no segundo andar com meus colegas de sempre, na prática, eu sou terceiro semestre numa sala no primeiro andar com uns calouros, sexto semestre no segundo andar e nono semestre no terceiro andar com o povo já sem muito saco para a faculdade e os textos exigidos (hello, depois de quatro anos e meio de faculdade, quem pode condená-los?) e, parando pra pensar nisso hoje durante a aula de uma matéria que eu devia, percebi o quanto vai ser bom para as minhas pernas essa sequência de escadas e o quanto vai ser bom para a minha mente essa coisa de pegar matérias em semestres tão abissalmente diferentes e analisei as repercussões.
Talvez pessoas que não façam psicologia achem que os aspirantes a psicólogos são todos seres maravilhosos que querem ajudar o próximo. Infelizmente, minha observação displicente me faz crer que não é bem assim. A psicologia é uma árvore cheia de ramos ( o que talvez os alunos do terceiro semestre não saibam porque não viram nem metade das possibilidades ainda, e o que talvez os alunos do nono semestre já nem queiram mais saber, afinal eles já escolheram o que fazer da vida e quem muito se questiona sempre corre o risco de se indecidir) e cada estudante de psicologia com sua aspiração poderia (na minha mente insana pelo menos, poderia com certeza) fazer rupturas de escolha dentro do curso dignas daqueles corredores clichês de filmes de High School americanos ou de panelinhas de Malhação. A verdade é que a Psicologia é um curso defasado - em dez semestres você sai com um diploma de psicólogo podendo atender em qualquer perspectiva e com conhecimentos básicos (realmente primários, eu arriscaria dizer) sobre todas elas. Ou seja, um diploma vago. O médico que quer ser ortopedista tem que fazer residência, certo? Ele não tem um diploma de corpo humano e sai por aí futucando qualquer parte, certo? Pois um psicólogo pode mexer na sua mente/discurso/comportamento tranquilamente desde que provido de um diploma de psicólogo.
Na minha opinião essa defasagem (no sentido de não obrigatoriedade de uma especificidade na formação) é séria, mas a partir dela eu elaborei uma teoria sobre o lado babaca da psicologia que é muito boa e faria qualquer estudante de psicologia que se leva mais a sério do que o recomendado (que, infelizmente, é uma mania muito aborrecida que as pessoas ao meu redor costumam ter, ou pelo menos os meus antigos colegas da faculdade de jornalismo tinham) me jogar pedras nos comentários.
Bom, na formação final da psicologia, supõe-se que a pessoa tomou duas decisões: uma linha teórica a seguir + um ramo da psicologia para trabalhar. Os ramos são, por exemplo, psicologia analítica (Jung), psicanálise (Freud; Lacan), behaviorismo (Skinner); cognitva (Beck) ou sistêmica (Maturana) enquanto que os ramos de trabalho são, psicologia hospitalar, clínica, escolar, social,organizacional ou carreira acadêmica/ científica. Enfim, cada um pega sua pipoca e seu guaraná e faz seu combo com sal a gosto.
Como cada filosofia teórica se aporta em critérios específicos de estudo, cada uma acaba exigindo um olhar sobre o sujeito. Se, por exemplo, um behaviorista vai se interessar pelas expressões comportamentais do sujeito, um sistêmico vai querer compreender seus sistemas e reverberações (família, por exemplo) enquanto um psicanalista vai se interessar pelo discurso do cliente. Não é tudo a mesma coisa, de verdade. Eu tenho seis amigas que fazem psicologia e eu sou a única que pretende ser psicanalista - pensando sobre isso, sobre que tipo de motivação faz cada pessoa escolher a linha teórica e/ou aplicação prática que vai reger seus caminhos na profissão e me ancorando na richa infantil que rola entre behavioristas e psicanalistas, fiz a teoria mais babaca da psicologia. A teoria da escolha. Não custa muito avisar de novo, para o caso de alguém com algum grau de dislexia estar lendo, que a teoria é uma piada pronta, uma furada, construída em cima do mais alto grau de superficialidade que existe e portanto perfeitamente cabível.
Embora todo mundo ache que psicólogo viaja na maionese, o behaviorista é aquele cara prático, que quer ver o que interessa, resolver com rapidez e normalmente, de fora pra dentro. Ele só acredita em fatos, comprovações e "ciência". O gestaltista é o hippie, que acha que o todo se entrega na parte e a parte no todo e a soma das partes é mais do que o todo ZzZZzz acende o incenso. O psicanalista é o cara mais prepotente de todos, que faz do seu saber uma coisa que ninguém nunca pode alcançar, mas curte viajar na maionese, no de dentro pra fora, analisar um discursinho e analisar toda a teoria através dos reflexos sociais da cultura. As vezes pode sofrer de Freudite e achar que Freud é Deus e tudo que ele falou é ouro.
Essa "teoria das escolhas" é rídicula justamente porque ninguém consegue caber tão bem em um rótulo assim ou ser uma coisa só o tempo todo - já que somos seres sociais e nos construímos através de nossos laços. Ou seja, posso ser muito doce com fulano e extremamente ácida com beltrano, o que importa é que ambos dancemos conforme a música da nossa relação. Ainda assim, confesso que por muito tempo eu levantei essa bandeira anti-behaviorismo por aí, falando que era um saco, coisa de gente superficial e etc, mesmo que eu conheça e ame pessoas que acham que behaviorismo é vida e já decidiram que vão seguir esse caminho. Obviamente eu continuo discordando das raízes teorícas do behaviorismo - porque se opõem a psicanalise e acreditar em opostos nesse caso provavelmente me levaria a loucura, já que, por exemplo, um diz que inconsciente não existe e outro diz que inconsciente é a última fronteira e precisa ser penetrada!
Hoje eu tive aula justamente de behaviorismo, matéria que eu estava devendo, lá no terceiro semestre, com o pessoal verdinho que está começando a ver linhas teóricas e aí eu me dei conta: é bem importante que eu abra cabeça para ouvir de verdade o que aquele professor está falando, posso discordar de tudo, posso não acreditar em nada, mas preciso entender o que é aquilo primeiro, até para discordar, porque meu conhecimento de faculdade vai ser todo o meu conhecimento sobre a linha, já que especializações e derivados eu pretendo fazer no que eu gosto e me interessa. Depois de ter tomado essa decisão, me senti rica de bom senso e renovada para enfrentar o semestre, além de ter me sentido responsável pela construção do meu próprio saber que vai diretamente ser limitado pela minha escolha seguinte: olho o behaviorismo com os olhos críticos de quem quer ser psicanalista e discorda ou olho com olhos de quem não conhece e precisa descobrir? Suponho que devo olhar com o segundo, assim como desejo que as pessoas olhem a minha psicanálise assim, como até vejo os leigos cada vez mais lendo sobre, se interessando sobre, trazendo pra si e cada vez mais vejo os preconceitos das pessoas que estudam psicologia dizendo que psicanálise é falar sozinho num divã ou que não dá pra entender nada do que esses velhinhos diziam. A linha teórica é só uma lupa de aumento pra ver o mundo, cada uma escolhe a sua e sabe se lá porque cada um escolhe o que escolheu. Ou seja, linha teórica é tipo o amor, todo mundo escolhe e ninguém explica embora todo mundo tente.


Sobre a foto: Meu Freud de nariz quebrado (de tanto dar a cara a tapa, talvez?) em cima dos livros com as crônicas semanais do psicanalista Contardo Calligaris na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O limite da razão.



Olha, muitas e muitas vezes na vida eu "decidi" e me prometi alguma coisa e segui firme e adiante na decisão por, sei lá, sendo otimista, umas duas semanas. Tipo, 'não amo mais fulano', 'estou de dieta', 'vou levar estatística a sério esse semestre' e coisas assim. O problema é que eu acho que nasci pra ser contraventora ou desprovida de qualquer espécie de razoabilidade e/ou amor próprio ou vai ver que eu simplesmente não conheço o significado de força de vontade e objetivos de vida e enxergo tudo com os olhos superficiais de quem só consegue ver a primeira camada de consequências e nunca olhar adiante para os desdobramentos futuros ou todas as opções citadas anteriormente juntas, porque entre as consequências horríveis de não fazer o que eu havia decidido e me prometido, como ficar curtindo dor de cotovelo eterna, engordar e querer me matar vendo que todo mundo emagrece menos eu e largar a matéria mil vezes de modo a atrasar o curso todo e me formar tardiamente e fazer o que eu havia prometido pra mim mesma que cumpriria, eu sempre acabava sendo impelida a me agarrar nas consequências diretas do abandono da minha decisão e trata-las como bóias que me permitiam não afundar no mar e aguentar ouvir todas as queixas de minha mãe sobre a minha displicência e auto-abandono. (Minha mãe tem a terrível mania de estar sempre certa)
Vamos dizer que, a essas tragédias cotidianas eu já estava habituada, o duro era sair do roteiro e encarar de fato as outras coisas - e o mais duro ainda é que embora as consequências ruins sejam bem ruins, as consequências boas que eu teria se eu tivesse me mantido nessas "decisões" de duas semanas seriam ínfimas (percebe aqui os olhos acostumados a olhar apenas para um passo no futuro e não para a amplidão?). Tipo, abrir mão de todos os meus sentimentos e ganhei uma solidão (sim, eu nasci numa novela mexicana de quinta categoria e as vezes acho que sofrer sozinho é viver, juro), abrir mão de comer tudo que eu queria e abrir mão da preguiça e de ficar em casa de pijama pra fazer dieta e malhar e emagrecer dois quilos quando eu preciso emagrecer uns vinte ou abrir mão de dormir até as dez da manhã pra ir aprender a mexer numa calculadora científica.
Senta lá, sabe Cláudia, porque todas as vezes que eu desisti foi por isso: esforço irracional para abrir mão de coisas boas em prol de coisas que as pessoas dizem que são boas. Ou abri mão de coisas boas buscando coisas muito boas mas que demorariam muito a vir - devem passar uns dois ou três anos até que eu perca vinte quilos, vai passar seis meses ou mais pra que eu entenda alguma mínima coisa de estatística e vai demorar uns quinze anos pra eu entender que um coração ferido também tem direito de tentar fazer da vida amorosa alguma coisa útil de verdade. Até aqui tinha sido assim. Aqui aqui os olhos rasos saíam do horizonte ao ouvir o sininho do isopor de capelinha da praia. Mas aqui as coisas mudam ou pelo menos começam a mudar, já na forma de enxergar os problemas. Aqui aconteceram coisas que fizeram com que a minha percepção mudasse. Aqui eu começo a ter que retroceder pro passado e levar todas as coisas com a maior seriedade possível pra poder caminhar rumo ao futuro. Aqui eu peço penico rosa, coloco entre as pernas e saio pianinho. Aqui eu vendi a alma ao diabo, pendurei a plaquinha de "fechado para almoço" no pescoço da Juliana que todo mundo conhece e um beijo, tchau. Saudade pra quem é de saudade. Saudade pra quem tem tempo e disposição pra isso - o que não é meu caso no momento.
Acho que o que eu preciso mais é transformar estas coisas em rotina. Transformar a vida em rotina, as coisas em obrigações que eu preciso fazer, tipo escovar os dentes. Uma rotina inquestionável. Aquela coisa que a gente apenas faz porque já tá acostumada a fazer e então não fica questionando o custo X benefício daquilo e nem chorando pelos cantos porque dormir ou comer são melhores do que aula chata as sete da manhã. Espero conseguir fazer esta rotina, espero conseguir seguir minha rotina, espero ter mais objetivos e consequentemente mais força de vontade esse semestre, esse ano, essa encarnação, quem sabe? Só sei que eu juro solenemente pra mim mesma que eu vou ser uma velhinha com rotina, horário de dormir, quantidade de filmes e livros, ginástica e estudo por semana. E é assim que a banda vai tocar. E todo o resto vai ter que se encaixar nas brechas que surgirem na minha agenda. Dessa vez acho que é um beco sem saída. Espero que seja mesmo, porque, se tiver saída, eu já sei que eu escapo. Queria poder conversar isso com alguém. Mas a verdade é que essas personagens atrapalhadas e que não sabem o que fazer com a própria vida e o próprio umbigo só fazem sucesso em livros e filmes tipo Bridget Jones e Becky Bloom. Na vida real, ninguém troca uma editora chefe bem vestida e de cabelo impecável por uma doida ruiva endividada. Nem tampouco alguém em sã consciência deixaria de se relacionar com uma advogada séria, inteligente e independente para viver do lado de uma gordinha fumante que usa calcinha de vó e paga mico em rede nacional. Saudade da terapia.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lista do mês. #01

Depois de ler o post da Juliana Cunha no "Já matei por menos" falando sobre a relação de comprometimento com as próprias promessas para o ano novo, eu me motivei a fazer minhas próprias listas para me perceber cumprindo o que eu prometi a mim mesma. Elegi 2010 como o ano da cultura, mas quando elegemos algo ou alguém, precisamos estar sempre cobrando os resultados.
Os livros que eu li/lerei estarão na estante, me lembrando que foram lidos, mas como vou me lembrar dos filmes que eu vi?! Portanto, inicio a "Lista do mês #" a qual eu (espero) prometo ser fiel, amar e respeitar na saúde e na doença em todos os meses da minha vida, amém. Então, chega de chorumelas e vamos a lista.

(ps. é, isso aqui tá parecendo o blog do @sobaminhalente né?)

Filmes de Janeiro:

No cinema:

- Alvin e os esquilos 2, Betty Thomas
- Avatar, James Cameron
- EX!, Fausto Brizzi
- Invictus, Clint Eastwood
- Nine, Rob Marshall
- Sherlock Holmes, Guy Ritchie
- Terapia para casais, Peter Billingsley
- Up in the air, Jason Reitman

No Dvd:

- A proposta, Anne Fletcher
- Delírios de Consumo de Blecky Bloom, P.J. Hogan



Fico feliz tendo visto dez filmes esse mês - tenho certeza de que não vou repetir o feito em nenhum outro mês esse ano, principalmente encarando o fato de que eu odeio alugar filme pra assistir em casa e quase sempre durmo. Eu adoro comédia romântica, então, filmes como "A proposta", "Delírios de Consumo de Becky Bloom" e "Terapia para casais" se inserem perfeitamente na minha necessidade de água com açucar correndo no sangue - contudo, só A proposta é gostosinho de assistir. Porém, os filmes que mais valeram o ingresso do cinema nesse mês de janeiro foram, nesta ordem: Invictus ( Clint Eastwood na sua melhor forma, Morgan Freeman idem) ; Up in the air (Drama sarcástico com pano de fundo econômico e George Clooney) e EX! (comédia romântica italiana que tem como tema o que se passa depois fo dim das relações).

Fica ai a recomendação para quem quer ir no cinema e tá meio perdido pra separar o joio do trigo.

#promessapara2010


Esse ano eu me comprometo a ler pelo menos vinte livros. Um já foi, faltam os próximos dezenove.